Crónicas de um líder isolado

Vivemos tempos difíceis, é certo. E é em tempos difíceis que precisamos de GRANDES líderes.

Voltámos ao confinamento e às mesmas rotinas diárias: fato de treino, cabelo por pentear, barba por fazer. De repente, era março outra vez, e parecíamos cair novamente numa normalidade que jamais pensaríamos voltar a viver. Apenas com uma pequena (grande) diferença: o Sporting é, agora, líder isolado do campeonato português.

Se no primeiro confinamento as minhas principais batalhas diárias eram decidir se passava a tarde a fazer vinte e sete pães de Mafra ou a aprender a tocar banjo; e se tomava banho à segunda, quarta e sexta ou apenas às terças, quintas e sábados (assumindo logo, por planeamento estratégico, que domingo seria dia de descanso), neste 2nd round que disputo com o confinamento, a minha luta é outra. É interior, intrínseca e prende-se concretamente com a minha total incapacidade de lidar com o gradual distanciamento do Sporting no topo da tabela classificativa, enquanto estou confinado entre quatro paredes.

Muito se fala das orientações da DGS que, embora por vezes confusas, estão atualmente muito mais claras e assertivas do que estavam há 11 meses, fazendo com que todos nós, nos dias de hoje, saibamos como nos devemos comportar e agir de forma cívica, responsável e em segurança. Apenas levanto, então, uma questão que, no seguimento do meu desabafo enunciado há pouco, se reveste de uma importância extrema e gritante:

Onde estão as orientações para um sportinguista desorientado?

Sei que tenho de usar máscara em espaços fechados e na via pública, mas não sei como encarar os meus amigos quando o assunto em causa vem à baila: devo fingir que sei abordar a situação, que estou calmo e com as expetativas baixas, ou devo deixar cair a máscara e dar parte fraca, exibindo toda a minha histeria e felicidade, apenas comparável à de um miúdo de 7 anos quando entra no corredor das Nerfs na ToysRUs?

Sei que, na rua, tenho de manter uma distância de segurança de 2 metros das outras pessoas. Mas o que devo fazer quando vejo essa distância disparar para 10 ou 15 (pontos), sem poder abraçar aqueles que, nos últimos anos, sempre estiveram a menos de 2 metros de mim nas bancadas de Alvalade?

Sei, também, que tenho de desinfetar e higienizar as mãos sempre que possível, mas não há orientação que me diga com que frequência devo lavar os meus pensamentos para que estes não estejam sempre focados no mesmo: que vai ser este ano, que tem de ser este ano, e que, deste ano, não pode passar. Sei que estão proibidos os ajuntamentos e as deslocações, salvo algumas exceções, mas não sei como gerir este sentimento de frustração por não poder ir à bola, por não poder levantar o cachecol, gritar golo e aplaudir. Não deveríamos ser nós, os sportinguistas, que pacientemente aguardam há 19 anos, também uma exceção, quando o campeonato que o Sporting tem vindo a realizar este ano configura ele próprio uma exceção comparativamente aos das últimas duas décadas?

Posto isto, faltam medidas e gráficos de linhas/barras. Faltam reuniões quinzenais e conferências de imprensa. Urgem orientações capazes de combater um sentimento tão forte e próprio de uma nação que nunca se deixou vergar.

Deste modo, e após uma extensa e profunda reflexão e análise, apenas consigo chegar a uma conclusão. Estamos perante uma nova estirpe: Sporting-Líder23, que muitos ainda desconhecem, mas que, ao contrário do que inicialmente se previa, pelas mais variadas equipas científico-tático-analíticas, parece ter vindo para ficar. Ao contrário das outras estirpes, naturalmente preocupantes e merecedoras de todo o nosso respeito e cuidado, esta não é perigosa, nem motivo para alarme.

Sem embargo de ter um alto nível de contágio, onde se estima que poderá alastrar-se a cerca de 3 milhões e meio de pessoas, os efeitos da mesma na população são, apesar da desorientação que descrevi há momentos, um sentimento de felicidade, esperança e de um futuro risonho que, ano após ano, tardava em aparecer.

Concluindo, mantenhamo-nos limitados ao nosso concelho, que talvez o melhor conselho que podemos nesta altura receber para enfrentar esta estirpe seja o mesmo que para todas as outras: lutar dia-a-dia (jogo-a-jogo), manter a calma, a esperança e a resiliência para podermos, no fim, atingir a tão esperada imunidade de grupo (Título).

Saudações de um líder isolado!

 

Nota do autor: texto escrito na base do humor por um autor irracional e apaixonado no que ao futebol e ao Sporting CP diz respeito, mas completamente consciente e alerta no que à gravidade da pandemia diz respeito, com as devidas comparações, onde o futebol é, naturalmente, secundário.

 

Tomás Fonseca

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