GameSpot vs. Fome dos Retail Investors

Antes de começar, gostaria de explicar brevemente o que está a acontecer. Tudo começou num grupo no Reddit (r/wallstreetbets). Um grupo com mais de 2 milhões de pessoas decidiu procurar as empresas mais “shortadas” (empresas com mais % de volume de “short-sellers”) por fundos de investimento, e a ideia era que se todas as pessoas naquele grupo comprassem ações daquela empresa, e não as vendessem, a ação iria subir de valor, causando enormes prejuízos a esses fundos de investimento. O improvável aconteceu, e sem lógica financeira nenhuma, contrariando todas as definições de mercado eficiente, a ação subiu vertiginosamente, obrigando os fundos de investimentos, que decidiram fazer “short”, a comprar desesperadamente a ação (Short-squeeze). Neste momento, e depois de uma mediação gigante nos media, a ação encontra-se com um crescimento de mais de 4000% YoY, levando alguns fundos de investimento a declararem perdas gigantes e, até mesmo, a falência.

Este resumo é curto, mas suficiente para perceberem a situação geral. As razões pelas quais a empresa GameStop foi escolhida é um enigma que provavelmente nunca ninguém irá saber ao certo, mas uma das razões prende-se ao facto de ser uma empresa pela qual existiam mais posições de “short” abertas do que ações disponíveis no mercado. Este fenómeno levou esta empresa a atingir valores mínimos históricos devido à alegada manipulação dos fundos de investimento.

Este acontecimento está a levantar um debate enorme criando uma espécie de luta caracterizada entre a “enorme máquina capitalista” (que inclui o governo) e investidores de classe média americana, numa luta entre David vs. Golias. Denominação dos media, não minha.

Para intensificar este debate, alguns media estão a posicionar-se contra os chamados “Reddit Investors”, afirmando que estes estão a arruinar o mercado. Esta posição dos media, deu mais ânimo a estes grupos de retail investors que decidiram organizar-se para fazer o mesmo a outras empresas, como foi o caso das ações da Nokia e da AMC, que nos últimos dias viram a sua capitalização bolsista disparar também.

Sugiro a visualização do vídeo entre o secretário de estado de Massachusetts e Kevin O´Leary. Este vídeo demonstra bem as diferenças de pensamento entre ambos os entrevistados. O secretário de estado dos EUA sente-se preocupado pela perigosidade dos efeitos a curto prazo deste tipo de reações e especulação, e considera que os reguladores têm de ganhar o controlo, de novo, dos mercados. Este culpa os investidores “não sofisticados” pelos acontecimentos e apela a restrições. Considera que este não é o tempo ideal para este tipo de “jogos”. Há muito por onde pegar neste discurso do secretário geral. Este discurso tem como base várias premissas que não acredito que sejam totalmente verdadeiras. Podemos pegar no argumento de Kevin que diz que os mercados sempre foram movidos por especulação. A especulação faz parte dos mercados e, penso que, beneficiou os mesmos que o estão a criticar, a atingir máximos históricos em todos os maiores índices Norte-Americanos, nos últimos meses.

O secretário sugere que há diferença entre especulação e investimento, algo que eu concordo, mas será que só os “investidores não sofisticados” é que especulam e arruínam o mercado? Será que a culpa é toda destes investidores de retalho, que inconscientes das suas ações, estão a destabilizar o mercado quase perfeito Norte-Americano? Só existirá espaço para os Big Players e não para esta nova realidade de player no mercado?

A minha opinião é que a introdução deste novo player no mercado veio para ficar, mas não irá ser relevante, e este buzz à volta desta situação, apesar de achar que se vai dissipar, vai obrigar o mercado a ajustar-se e a arranjar um equilíbrio para este novo e denominado “desequilibrado” player. Kevin diz mesmo “Let the Market be the Market”.

Este medo pela volatilidade e pelo “no reality” (expressão utilizada pelo secretário de estado), não foram relevantes nesta última corrida pela Bitcoin (ou no escrutínio desta) ou pelas avaliações astronómicas que certas empresas de grandes setores da economia tiveram. Algo idêntico, mas escrutinado de diferente forma.

A minha posição sobre a eficiência do mercado como um todo ainda não está definida, mas acho que é do consenso comum que os mercados financeiros não são 100% eficientes e existe uma imprevisibilidade constante no mercado que por vezes se torna gigante em casos particulares como este.

Posso estar enganado, mas, a meu ver, as ações destes investidores de retalho não metem em perigo o sistema, mas as ações questionáveis das corretoras, se restringirem as ações ou o envolvimento destes mesmos investidores no mercado, abrem um precedente gigante e questões sobre a autoridade e a eficiência do mercado. Se há algo positivo que temos de retirar desta situação, é que levantou, outra vez, a questão da legislação em redor do shortselling e do tranding em geral.

 

João Boavida

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